A expectativa é que a economia da Alemanha permaneça estagnada no primeiro trimestre de 2025, após dois anos consecutivos de retração.
Esse cenário marca uma virada no que, durante décadas, foi conhecido como o “milagre econômico” alemão.
Do pós-guerra ao milagre econômico
No final dos anos 40, investimentos estratégicos em oleodutos e reatores nucleares impulsionaram a economia do país, abrindo caminho para o acesso ao petróleo norueguês e ao gás russo.
Com reformas no mercado de trabalho, moderação salarial e melhorias na logística de transporte marítimo, a Alemanha se consolidou como potência industrial, especialmente nos setores de automóveis, produtos químicos e engenharia mecânica.
Esse modelo permitiu que, mesmo representando apenas 85 dos 500 milhões de habitantes da União Europeia, sua economia ficasse 20% acima da do Reino Unido.
Os golpes geopolíticos
Mas o que mudou para que os indicadores econômicos se mantivessem sem crescimento? Quatro grandes eventos marcaram o início dessa estagnação:
- Brexit: a saída do Reino Unido da União Europeia impactou significativamente as relações comerciais;
- Tarifas dos EUA: durante o governo Trump, as barreiras tarifárias prejudicaram o comércio internacional;
- Invasão da Ucrânia: interrupção do fornecimento de gás barato, decorrente do conflito, fragilizou o modelo energético;
- Ascensão da China: de compradora, a China se transformou em concorrente direta no mercado global.
Esses fatores, fortemente enraizados na geopolítica, expuseram a dependência excessiva do modelo tradicional de exportação alemão.
O descompasso tecnológico
Outro aspecto crítico é a falta de adaptação tecnológica. Muitos analistas apontam que a Alemanha tem uma das piores redes de telefonia móvel da Europa, ainda utiliza fax em setores estratégicos e muitos comerciantes operam exclusivamente com dinheiro.
Além disso, o país não possui um projeto robusto na área de inteligência artificial.
Enquanto os consumidores passam a exigir tecnologias digitais avançadas – como veículos elétricos e serviços conectados –, a indústria automotiva tradicional alemã, focada em veículos movidos a combustíveis fósseis, ficou para trás.
Um sinal alarmante desse retrocesso é a ameaça da Volkswagen, que pode fechar fábricas no país pela primeira vez em 87 anos.
Investimentos para um futuro dinâmico
Diante desse cenário, a aposta é que a resposta para a estagnação esteja na inovação e em investimentos maciços.
Mario Draghi, ex-presidente do Banco Central Europeu e ex-primeiro-ministro da Itália, defende um ambicioso pacote de cerca de 800 bilhões de euros por ano para revitalizar a economia europeia.
Enquanto o crescimento global no último século foi de 2,97% ao ano, a zona do euro registrou uma média de apenas 1,27%. Investimentos nessa escala poderiam modernizar a indústria, impulsionar a inovação e reverter a lenta agonia econômica.
O papel decisivo das eleições
Com tantas mudanças e desafios pela frente, todos os olhos se voltam para as próximas eleições na Alemanha.
A liderança que emergir desse processo poderá definir o rumo não só da maior economia da Europa, mas também influenciar toda a dinâmica econômica do continente.
É necessário continuar acompanhando de perto os desdobramentos desse cenário. Afinal, a transformação econômica da Alemanha pode ser o ponto de partida para uma renovação muito necessária na Europa.